Baterista confessa assassinato de violinista em motel

A violonista Mayara Amaral, de 27 anos, saiu de casa atrasada na tarde de 24 de julho. Vestiu-se às pressas — camiseta regata azul, calça jeans rasgada na altura do joelho e os tênis All Star pretos de cano curto que não tirava dos pés. Deu tchau para a amiga com quem dividia o apartamento em um bairro de classe média de Campo Grande (MS) e ligou seu carro, um Gol branco modelo 1992. Era dia de ensaio, e o destino era a casa de uma das integrantes da sua banda, a Vacas Profanas, que acabara de criar com as amigas.
Em um bairro próximo dali, o baterista e técnico em informática Luís Alberto Bastos Barbosa, de 29 anos, com quem Mayara vinha se encontrando havia três meses, também se arrumava para sair. Ele iria a um bar para beber com amigos e depois voltaria para casa a fim de esperar por ela. Os dois haviam combinado que às 22 horas, depois do ensaio, Mayara o apanharia lá.
O desfecho desse encontro veio a público menos de 24 horas depois, quando o corpo sem vida da violonista foi achado às margens da Rodovia MS-080, na região norte da cidade. Estava quase todo carbonizado e apresentava perfurações na cabeça. No dia seguinte, Luís Alberto foi preso. Com ele, foram detidos dois amigos que a polícia surpreendeu com o Gol de Mayara — Anderson Sanches e Ronaldo da Silva Olmedo, conhecido como Cachorrão.
O que se passou nas dezessete horas transcorridas entre o encontro de Mayara e Luís Alberto e o momento em que o corpo da jovem foi abandonado na estrada foi relatado a VEJA pelo baterista, que na entrevista confessou ter executado a jovem (leia abaixo). Na primeira versão apresentada à polícia, ele negara ser o seu assassino. Disse que, por sugestão de Mayara, na noite do dia 24, eles haviam ido a um motel acompanhados de um amigo, o Cachorrão. Já no quarto, enquanto ele tomava um banho de banheira, Cachorrão teria agredido Mayara com um martelo. A equipe de perícia da Polícia Civil, no entanto, não encontrou as digitais de Cachorrão no motel. “Não há nenhum indício de que uma terceira pessoa tenha estado na cena do crime”, diz a delegada do caso, Gabriela Stainle.
Na entrevista dada a VEJA, na quinta-feira passada, Luís Alberto admitiu ter ido só com Mayara ao motel e desferido, ele próprio, os golpes de martelo que tiraram sua vida. Contou que só procurou Cachorrão e Anderson quando a violonista já estava morta. Queria se livrar do carro da jovem e pediu que Anderson o levasse ao Paraguai.
Nas palavras do assassino confesso, o crime ocorreu por causa de um rompante de raiva que o acometeu depois de uma discussão. Luís Alberto diz que já estava embriagado quando chegou ao motel com Mayara — no bar a que havia ido antes, consumira sozinho o equivalente a uma garrafa de vodca. No decorrer da noite, relatou ter cheirado cocaína e continuado a beber, desta vez cachaça. A discussão começou porque Luís Alberto se irritou com a forma como Mayara teria se referido à jovem com quem o baterista namora há sete anos. Ensandecido, ele disse ter pego o martelo que carregava na mochila e acertado três vezes a cabeça de Maya­ra.
Luís Alberto, que é usuário contumaz de cocaína, afirma que carregava a ferramenta para se defender. “Não foi planejado, a mochila estava aberta na cabeceira da cama e o cabo estava de fora. Foi um momento de fúria”, disse o assassino. Ao constatar que Mayara estava morta, ele limpou o sangue do quarto e deixou o motel na manhã do dia seguinte. Luís Alberto conta que tentou enterrar o corpo da violonista em um terreno baldio próximo de sua casa, mas o solo pantanoso impedia que o cadáver ficasse totalmente submerso. Foi então que decidiu passar em um posto de gasolina, comprou 5 litros de álcool e foi para uma área de pasto em uma região conhecida como Inferninho. Umedeceu o corpo de Mayara com o combustível, espalhou o líquido em volta para simular um incêndio e acendeu o fósforo.
No mesmo dia em que ateou fogo ao corpo da jovem, trocou mensagens de WhatsApp com a mãe de Mayara, que àquela altura já se preocupava com o desaparecimento da filha. Fazendo-se passar pela violonista, tentou lançar suspeitas sobre um amigo de Mayara. “Ele disse que vai me matar, estou com medo”, escreveu o assassino, fingindo ser a garota e referindo-se ao tatuador Fabio Gonzalez, com quem, segundo a polícia, ela também estava se relacionando (ele chegou a ser chamado para depor, mas foi liberado). Mayara havia comentado com os pais, Ilda Cardoso e Alziro Lopes do Amaral, que estava saindo com Luís Alberto, apresentado a ela por amigos músicos. Na quarta-feira da semana passada, Ilda e o marido foram ao apartamento da filha para recolher roupas e objetos. “Ela era tão meiga e amorosa. Não merecia isso”, disse a mãe.
Luís Alberto estudou até o ensino médio e trabalhava como técnico de informática da Secretaria de Saúde do município de Campo Grande. Ganhava 2 800 reais por mês. Tocava violão e bateria e gostava de rock pesado. Não tinha passagem pela polícia, mas familiares admitem que fazia uso frequente de cocaína. “Sempre foi trabalhador, mas os amigos errados que escolheu o levaram para as drogas”, disse o pai, Luís Eduardo Nogueira Barbosa.
O corpo de Mayara foi reconhecido por seu ex-marido, Pieter Rahmeier, de quem ela estava separada havia quatro meses. Mayara era uma artista conhecida na cena musical de Campo Grande. Filha de uma dona de casa e um oficial de Justiça, estudou em escola pública e entrou com louvor no curso de música da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Aos 17 anos, conheceu no pátio da universidade o futuro marido, que na época tinha 26. Pieter conta que se apaixonou ao ver Mayara tocar violão.
“Era uma menina doce e ao mesmo tempo muito determinada.” Após três meses de namoro, eles resolveram se casar. Viveram sob o mesmo teto por quase dez anos. Quando o casamento deu os primeiros sinais de estremecimento, os dois chegaram a fazer terapia, na esperança de salvá-lo, até que ouviram da psicóloga que deveriam se separar, pois eram tão diferentes quanto o sol e a lua. Para Pieter, pesou na separação o fato de que ele e Mayara começaram a ter prioridades diferentes. “Eu sou caseiro, e ela passou a gostar de baladas. Eu queria ter filhos, e ela queria morar fora do país.” Mayara participava de um programa de ensino de violão para crianças da rede pública, frequentava reuniões de grupos feministas, gostava de Chopin e de ir dar aulas de bicicleta (mantinha o carro porque o pai fazia questão — achava mais seguro). Nunca havia viajado para o exterior e sonhava em cursar doutorado em música fora do Brasil. Mas o encontro com Luís Alberto tirou dela tudo o que tinha — e o que poderia vir a ter um dia.

“Sempre soube que seria pego”

Em entrevista a VEJA, Luís Alberto confessa o crime e se diz arrependido
ENCARCERADO – O assassino de Mayara: “À noite, eu grito por Deus”© VEJA ENCARCERADO – O assassino de Mayara: “À noite, eu grito por Deus”
Onde você conheceu a Mayara? Num bar chamado Drama, há três meses. Tocamos juntos e, primeiro, rolou uma amizade. Só depois de duas semanas nos beijamos. Tenho namorada, mas sen­ti­mos uma atração e não resistimos.
Por que mudou a versão sobre o assassinato? Pus a culpa no Cachorrão para me livrar. Achava que, se envolvesse outras pessoas, minha pena seria menor. Como ele já tinha passagem pela polícia, menti que ele fez tudo. Mas, se olharem as digitais no cabo do martelo, vão ver que são minhas. Resolvi contar toda a verdade e enfrentar o que vem pela frente. Cometi um erro grave e quero pagar por ele.
Não pensou por um momento nas consequências? Fui movido pelo ódio, porque tínhamos discutido e ela debochou da minha namorada. Chamei-a de vagabunda e ela me bateu. Tive um ataque de fúria, tinha bebido e cheirado. Depois que tudo aconteceu, chorei por mais de duas horas seguidas.
Por que carregava um martelo na mochila? Porque, para comprar pó, eu ando em umas quebradas. Uso o martelo para me proteger.
Achava que ninguém descobriria o crime? Desde que me dei conta de que matei a Mayara, sempre soube que seria pego.
Está arrependido? Estou. Queria pedir desculpas à família da Maya­ra e à minha. Por mais que ninguém vá acreditar, eu gostava dela. Minha vida está destruída. Eu ia me casar, estava procurando casa, dei entrada para sacar o FGTS. Agora, não sei o que será de mim. Quando fecho os olhos, vem a imagem da Mayara e o momento do crime. Não tenho religião, mas, à noite, na cela, eu grito por Deus.

MSN

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