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São Fidélis: arte da Igreja Matriz em destaque

segunda-feira, 16 de março de 2015

/ Redação


São Fidélis, conhecida como a cidade poema, respira cultura, sob o esforço de pessoas iluminadas pela arte que tanto no passado, quanto na contemporaneidade, mantiveram e mantêm acessa a chama do fazer artístico. Um episódio ligado à arte, mas com pitadas de humor, ocorreu na grandiosa Igreja Matriz inaugurada em 23 de abril de 1809 e que se destaca pela sua imponência de construção em formato de cruz, numa referência à Basílica de São Pedro, no Vaticano. Fato este, que aproxima a Matriz de São Fidélis a outra importante igreja do Vaticano, a Capela Sistina. 

Como é natural em qualquer construção histórica, sua pintura interna de tempos em tempos carece de retoques e restaurações, uma vez que a base e a tinta sofrem danos com o passar do tempo. E, foi numa destas iniciativas que fez com que, na década de 1970, o vigário espanhol Monsenhor Ovídio Simon convidou o artista plástico espanhol Francisco Ubeda Marins para executar uma ampla recuperação de seus afrescos no teto da igreja que em cada setor representam o céu, o purgatório e o inferno. História esta que foi relatada no início dos anos 2000, durante um café na antiga residência do saudoso poeta fidelense Antonio Roberto Fernandes.

Segundo contou o poeta, o artista espanhol chegou à época em São Fidélis para uma temporada de trabalho. Na cidade hospedou-se na pensão de Dona Maria Batista, que era bem próximo à igreja matriz. "Francisco se dedicava ao extremo ao trabalho de restauro, saindo da pensão bem cedo, sem hora certa para almoçar, jantar ou dormir. Muitas vezes, o artista só chegava de volta já a noite, sedento por um banho e uma refeição para poder descansar. E essa desordem de rotina desagravava imensamente a Dona Maria, que nesses momentos o recebia aos desaforos, chegando a ponto de ameaçá-lo de expulsão", afirmou Antônio Roberto.

A história continuava... "Essa recepção diária nada agradável, aborrecia cada vez mais o artista que já finalizando seu trabalho, já tendo recuperado o céu e o purgatório e resolveu se vingar da idosa, a imortalizando no inferno, pintando sua imagem, de vassoura em punho em meio às figuras infernais, capetas e serpentes cuspindo fogo." Quem até hoje visita à Igreja, pode conferir que Dona Maria permanece imersa no fogo do inferno e, por lá ficará eternamente, pela vingança do artista ante a insensibilidade da dona da pensão.

Munido destas lembranças o arte-educador Wellington Cordeiro aprofundou a pesquisa e descobriu que esta história relatada por Antonio Roberto era fato comum na história da arte mundial. "Historicamente inúmeros artistas ultrapassaram os limites da encomenda e insistiram em introduzir mensagens pessoais, reivindicações, protestos, críticas veladas, pequenas desforras, opiniões políticas ou religiosas", diz Wellington. 

Outras célebres vinganças

Na busca de referências históricas,o pesquisador chegou à obra "Juízo Final", pintada por Miguel Ângelo na Capela Sistina entre ou entre 1537 e 1541, foi objeto de violentas críticas do mestre de cerimônias do Papa, Biagio da Cesena, pela quantidade de nus. O pintor italiano vingou-se ao retratar entre as almas condenadas ao inferno o seu crítico, que foi pintado com orelhas de burro e uma serpente a morder-lhe os órgãos genitais. "Podemos suspeitar que esta passagem histórica tenha inspirado a vingança ocorrida anos depois em São Fidélis", supõe Wellington.

São muitas outras histórias que podem ser aplicadas ao teor vingativo dos artistas. A escultora sevilhana Luisa Roldán, figura importante da imaginária barroca espanhola, mais conhecida por La Roldana, utilizou o seu Arcanjo Miguel a Vencer o Demônio (escultura em madeira que se encontra no Museu do Escorial) para descarregar a raiva suscitada pela turbulenta relação conjugal: moldou o rosto do diabo, ajoelhado sob o pé do arcanjo, com o semblante do marido, também artista e homem de negócios.

Fato parecido aconteceu com o artista austríaco Gustav Klimt, que cansado dos sucessivos ataques de que era alvo, pintou um quadro com uma figura feminina a mostrar descaradamente o traseiro nu, a que deu o título "Aos Meus Críticos. "Mesmo que precisemos resguardar as devidas proporções, tanto a Igreja de São Fidélis, quanto a Capela Sistina possuem histórias inusitadas incrustadas em seus tetos, valendo-se a pena mergulhar no fascinante mundo da arte" se não numa viagem ao Vaticano, pelo menos à nossa vizinha cidade de São Fidélis", finalizou Wellington.

FONTE: JORNAL O DIÁRIO
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