O drama da estiagem no Norte Fluminense



Na estrada estreita de asfalto que liga o distrito campista de Morro do Coco, à margem da BR 101, a Santa Luzia, área rural de São Francisco de Itabapoana, o cenário é desolador. O capim que servia de pasto para o gado está queimado e os canais que irrigam água para o solo estão secos. O drama de quem vive da atividade agropecuária já dura um ano. O verão passado teve menos chuva do que o esperado e quando a estiagem do inverno chegou, mais rigorosa que nos outros anos, o lençol freático já estava escasso. E então 2015 começa sem que uma gota d´água caia do céu. O produtor rural Sílvio Paes é dono de 320 hectares de terra na divisa dos dois municípios. Cirurgião dentista aposentado, sempre cuidou com capricho da fazenda Campo do Mico, herança de família. Tirando os 80 hectares de reserva florestal, o restante da propriedade é ocupado com gado de corte e plantações de aipim. Mas a lavoura não rende mais e grande parte do gado teve que seguir para Goiás e Mato Grosso, onde consegue pasto e água. Não bastasse a seca, em abril do ano passado uma espécie de lagarta dizimou o capim e a situação piorou.
Sílvio se orgulha de ter em suas terras o morro mais alto de São Francisco; 330 metros. Do alto é possível ver o rio Itabapoana (quando está cheio), a foz do Paraíba do Sul, as torres de energia eólica de Gargaú e alguns prédios de Campos. Mas a beleza da vista é ofuscada pela palidez do campo vasto que já foi verde. “Às vezes passa pela minha cabeça desistir, desfazer de tudo”, admite o produtor, que reclama da burocracia do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e da demora na ação dos governos para tentar minimizar os prejuízos. Aliás, Sílvio nem parou ainda para colocar na ponta do lápis as perdas acumuladas, que considera incalculáveis. Mas só para ter uma ideia, das mais de 600 cabeças de gado da fazenda hoje restam menos de 300.
Enquanto tenta manter a fazenda produtiva, permanece na fila à espera do aluguel de uma retroescavadeira para abrir e limpar novos canais em busca de água. A hora que custava R$ 80 já está em R$ 120 e não há máquinas suficientes para atender a demanda. “Nem a cana vingou, nem para alimentar o gado. Estou com 63 anos e desde 20 estou nisso. Nunca vi uma seca igual”.
No caminho para a fazenda, ele mostra o gado morto e um canal totalmente seco que não faz muito tempo chegava a três metros de profundidade e era morada de muitos robalos. “Acabou tudo. Eu sou médio produtor e sofro, mas aqui na região 90% são pequenos produtores, que não sabem mais o que fazer para sobreviver”.

FONTE: FOLHA ONLINE

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